Alergia Alimentar

Diagnosticar os alimentos que desencadeam reações alérgicas é fundamental

Para isso é importante uma avaliação clínica criterioso e testes alérgicos

A alergia alimentar é uma reação adversa, de causa imunológica, a um determinado alimento. O nosso organismo entende que aquele alimento é ruim para o nosso corpo e produz moléculas de defesa (anticorpo IgE) contra as proteínas desse alimento. Esse mal entendido leva a um processo de inflamação e liberação de várias moléculas que resultam em uma agressão ao nosso corpo.

Normalmente a reação alérgica é rápida, minutos a no máximo horas após a ingestão do alimento. Vários órgãos podem ser acometidos como o trato gastrointestinal levando a náuseas e vomito, diarreia e dores abdominais. A pele e sistema respiratório também costumam ser atingidos com formação de urticária, inchaços (angioedema), falta de ar, sintomas de rinite, conjuntivite e tosse.

Nos casos mais graves o paciente pode evoluir para choque anafilático e até morte. Mesmo que numa primeira crise de alergia os sintomas tenham sido leves nada impede que numa exposição posterior a reação seja mais severa, então é preciso orientação médica e evitar o alimento em questão.

Alergia Alimentar

E fundamental diagnosticar os alimentos que desencadeiam manifestações alérgicas

A alergia alimentar afeta de 6-8% das crianças e 3% dos adultos e sua incidência está aumentando. O principal fator de risco para alergia a alimentos é ter outras alergias, principalmente dermatite atópica.

Quais os alimentos que mais causam alergia no Brasil?

Qualquer alimento pode causar uma alergia alimentar, porém alguns poucos são os grandes vilões:

Em crianças:
Leite
Ovo (gema e clara)
Trigo
Soja
Amendoim
Peixe

Em adultos
Frutos do mar (camarão, siri, caranguejo, lagosta)
Amendoim
Castanhas e nozes
Peixe

Como é feito o diagnóstico?
Primeiro é importante uma história detalhada do paciente para tentar reduzir ao máximo o número de alimentos suspeitos e então poder testar cada um deles. Como vimos acima um número pequeno de alimentos costuma ser o responsável por mais de 90% dos casos de alergia a alimentos. Depois, fazemos os testes alérgicos, que podem ser no consultório com resultado rápido e praticamente indolor (prick teste ou teste cutâneo de leitura imediata). Pode-se também pedir exames de sangue para avaliar melhor determinadas proteínas específicas de cada alimento ou alimentos menos comuns.

É muito importante saber interpretar o resultado do teste. Um teste cutâneo positivo fraco pode significar apenas sensibilidade e não alergia ao alimento. Da mesma forma um exame de sangue fracamente positivo (grau 1 ou 2) também pode não significar que o paciente é alérgico. Nesses casos temos que relacionar com a história clínica do paciente (ele já comeu o alimento e teve reação alérgica?) e possivelmente fazer um teste de provocação alimentar.

Teste de provocação oral ou teste de provocação alimentar
É o principal teste para comprovar se o paciente realmente é alérgico a determinado alimento. As vezes o paciente tem uma história duvidosa e o teste alérgico é fracamente positivo, neste caso para ter certeza da alergia fazemos a provocação oral, que nada mais é do que dar o alimento em questão para o paciente, em doses pequenas e progressivamente maiores, em ambiente hospitalar e controlado. Também é muito utilizado quando queremos avaliar se o paciente já deixou de ser alérgico ao alimento, ou seja, já se tornou tolerante. Quando feito em local apropriado, dentro de ambiente hospitalar e com profissional treinado para tratar qualquer reação alérgica mais grave é um teste seguro e importante para a confirmação diagnóstica.

Tratamento de alergia alimentar
EVITAR O ALIMENTO!!
O único tratamento comprovadamente eficaz e seguro ate o momento é evitar a ingestão do alimento. Existem diversos estudos mundo afora com técnicas de dessensibilização para alergia a alimentos. A maioria dessas técnicas consiste em dar pequenas doses, progressivamente maiores, do alimento em questão para o paciente se acostumar (dessensibilizar). O problema é que o número de efeitos colaterais durante o tratamento ainda é muito alto, inclusive com reações graves, o que impede o uso rotineiro dessas técnicas. Estudo mais recente com o uso de adesivos com proteínas dos alimentos têm se mostrado promissor, com muito menos efeito colateral, porém ainda não está disponível para comercialização. O paciente com alergia alimentar deve orientar todos ao seu redor de sua condição, familiares, escola e amigos. Deve estar sempre atento e ler o rotulo dos alimentos industrializados buscando identificar nomes relacionados ao alimento que tem alergia. Importante também tomar cuidado ao comer na rua pois pode haver contaminação acidental. Alguém com alergia a camarão pode ter uma reação ao comer um pastel que queijo que foi servido pela mesma pessoa que preparou um de camarão e não lavou adequadamente as mãos. O cozinheiro pode preparar uma vitamina com leite em um liquidificador e não lavar direito e depois preparar um suco para a criança com APLV (alergia a proteína do leite de vaca).

Como detectar alimentos industrializados que contem leite? Orientação para APLV

Não ingerir alimentos cujo rótulo contenha esses ingredientes:

Como detectar alimentos industrializados que contem ovo? Alergia a ovo

Não ingerir alimentos cujo rótulo contenha esses ingredientes:

Como tratar a crise alérgica?

As crises podem ser leves, com pouca coceira e leve inchaço a severas, inclusive com reações anafiláticas e edema de glote. Nas crises leves o uso de antialérgicos e eventualmente corticoide deve resolver. Os pacientes que já tiveram reações graves devem ter sempre por perto um kit de adrenalina auto-injetavel (EpiPen, Anapen). Em caso de uma nova reação grave esses pacientes devem saber como utilizar o kit que pode salvar sua vida. Informações sobre onde encontrar esse kit aqui: http://www.anafilaxiabrasil.com.br/adrenalina-auto-injetável.

Posso ter alergia a corante?
Reações adversas a corantes, conservante e aditivos alimentares são bem raras. Na prática, quando se faz um teste de provocação, a maioria das pessoas que alega ser alergia a um corante não apresenta nenhuma reação alérgica.

Alergia a trigo X alergia a glúten
A alergia ao trigo tem as mesmas características de alergia a leite, ovo ou camarão, já descritas anteriormente, difere apenas o alimento, que é o trigo. Não existe alergia a glúten. O que existe é doença celíaca, uma doença genética autoimune que é causada por uma reação autoimune contra uma proteína no trigo chamada glúten. O doente celíaco ao comer alimentos com glúten desenvolve uma reação autoimune no intestino que leva a dificuldade de absorção de nutrientes. O paciente pode ter sintomas abdominais como diarreia, cólicas, gases e outros sintomas como anemia, osteoporose, fadiga, alterações neurológicas, dores articulares, rash cutâneo e desnutrição. O diagnostico e feito por exames de sangue, exames genéticos e endoscopia digestiva com biópsia.

Tenho alergia alimentar ou intolerância alimentar?
Vamos deixar claro que são duas doenças diferentes, as vezes causadas pelo mesmo alimento. Uma pessoa pode ser alérgica ao leite (APLV) e outra ser intolerante a proteína do leite (intolerância a lactose). Na alergia alimentar a proteína do alimento é absorvida pelo trato gastrointestinal e o sistema imunológico entende que ela é ruim para você e por isso produz anticorpos para neutralizá-la, levando a uma reação inflamatória em vários órgãos com sintomas como coceiras, inchaço na face, tosse e falta de ar, diarreia e dores abdominais e nos casos graves choque anafilático. É muito menos comum que a intolerância alimentar.

A intolerância alimentar é causada pela falta de uma enzima que deveria digerir determinado alimento no trato gastrointestinal. Não envolve produção de anticorpos pelo sistema imunológico e a reação é concentrada no trato gastrointestinal, como diarreia, náuseas, vômitos, gases e distensão abdominal. No caso da intolerância a lactose por exemplo o paciente tem deficiência na produção de uma enzima, a lactase, que deveria digerir a lactose. Ao não ser digerida ela atrai água ao intestino e causa diarreia. Os sintomas podem demorar horas ou até dias para aparecer porem nos casos mais leves o paciente consegue ingerir pequenas quantidades dos alimentos ou tomar uma dose de enzimas para ajudá-lo a digerir melhor.

Em comum, o alimento em questão deve ser evitado nas duas doenças.

Algum dia vou ficar curado da minha alergia alimentar?
85% das crianças deixam de ter alergia aos alimentos (ovo, leite, trigo e soja) entre 3-5 anos. Já a sensibilidade a amendoim, nozes, peixe e camarão costuma durar a vida toda. O papel do médico é acompanhar esse paciente e periodicamente realizar testes para avaliar se a alergia já melhorou. Se necessário fazer o teste de provocação oral para comprovar e dessensibilização.

Como prevenir alergia alimentar?
A amamentação ajuda a prevenir alergias de forma geral.
Até pouco tempo se preconizava adiar a introdução de alimentos com alto potencial de causar alergia (leite, ovo, amendoim) em bebes com alta chance de serem alérgicos (filhos de alérgicos, bebes com dermatite atópica). Estudos recentes mudaram essa conduta. Parece que há uma janela imunológica entre 4-11 meses em que a introdução desses alimentos leva a uma tolerância imunológica, os seja, diminui a chance de desenvolver alergia alimentar. A recomendação atual é que a dieta introduzida ao bebe seja a mesma da família, sem açúcar e sal, claro. Ou seja, se a família come pasta de amendoim poderia ser oferecido ao bebe a partir dos 4 meses. O mesmo com leite, ovo, trigo e soja.